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Evasão criativa

 

A evasão não é, sempre e  necessariamente, uma fuga, é, muitas vezes, o reencontro com a realidade, uma forma diferente de a apreender, podendo, por isso, ser, também, entendida como uma sua reconstrução ou até uma sua reabilitação.

Parte integrante da condição humana, a necessidade de evasão, qual sombra, sempre acompanhou o homem e nisto assumiu processos, contornos e profundidades bem diferentes.

Por vezes, ela segue por caminhos que encontram nas variações artificiais da consciência poderosas aliadas; em outras circunstâncias, mergulha de forma muito intensa na realidade, mais ou menos objectiva, sem qualquer intermediação que não seja a indagação do Belo.

A Arte é, sem dúvida, uma das formas mais sublimes de evasão. Ela permite, a um tempo, ao seu criador bem como ao  destinatário, o acesso a essa outra dimensão do real, relação simultaneamente concreta, universal, subjectiva e individual, mas, quase sempre, diacrónica.

O teatro, como tenho frisado, consegue vencer essa barreira temporal e assumir, magistralmente, de modo poderoso, o aqui agora.

Essa expressão artística concede às pessoas, aos artistas que existem em todos nós, a possibilidade de fazer do aqui agora um modo de estar que combina, muitas vezes de modo sublime, a possibilidade de sonhar, de voar e não tirar os pés do chão.

Ela chega a ser uma das possibilidades mais conseguidas de evasão totalizante, diria, uma vez que consegue romper, pela sinuosa alma da fantasia, com a realidade imediata, absorvendo-a, embelezando-a, modelando-a, reconstruindo-a.

Neste mês de Março que é também o da grande criadora que é a Mulher, é particularmente gratificante sentir o pulsar dos nossos artistas, um pouco por todo o lado, entregando-se de alma e coração à arte da representação.

Emociona ver jovens e menos jovens, numa azáfama só, num afã de dimensão nacional, entregando-se de corpo inteiro ao teatro.

Em salas, escolas e ruas desfilam, de forma mais ou menos sofisticada, gente de todas as idades, às vezes com quase nada, para proporcionar esse modo, muito especial, de evasão, de fusão do concreto com o maravilhoso e o fantástico.     

Os temas são diversos, os desempenhos variados, os cenários diferenciados, mas quase sempre muito singelos. Porém, a entrega invariavelmente a mesma: intensa, enérgica, funda,  contagiante.

No dia Internacional do Teatro saúdo, de forma muito calorosa, todos os nossos actores, produtores, encenadores e demais intervenientes nas artes cénicas que, em ligação  e sintonia estreitas com o que de melhor se faz a nível internacional, vão edificando, no chão das nossas ilhas e nas profundezas da nossa Alma, esse importante pilar da nossa cultura que, como tenho referido, é a nossa Pátria. 

Afectuosamente

Jorge Carlos Fonseca

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publicado às 12:31