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Forum Turismo Boa Vista

Excelências,

Senhor Presidente da CM da Boa Vista

Senhor Presidente da AM da Boa Vista

Senhores Presidentes das CM da Praia e do Tarrafal

Senhor Deputado nacional

Senhoras e Senhores Eleitos municipais

Senhoras e Senhores empresários e operadores turísticos

Senhoras e Senhores Profissionais da Comunicação Social

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Caros amigos

 

Pela terceira vez, enquanto Chefe de Estado encontro-me na ilha das dunas, desta feita, atendendo ao amável convite do Presidente da Câmara Municipal da Boavista, José Pinto de Almeida, para presidir a este fórum, importante para a ilha e, talvez, decisivo para Cabo Verde.

É com muito prazer que regresso a este belo recanto para participar de uma importante reflexão sobre o nosso devir comum.

 

Como tenho afirmado, nos fora em que se discutem questões de carácter nacional, tenho, enquanto Presidente da República, todo o interesse em apoiar e contribuir para o sucesso dos debates, propondo e sugerindo, com humildade, caminhos e pistas que, associados a outros, possam servir de base para uma reflexão mais consistente sobre o futuro de cada ilha e de Cabo Verde.

Caras Senhoras, caros Senhores,

 

Talvez não seja exagerado afirmar que o turismo é das actividades humanas com maior potencial integrador do planeta. A sua base é o prazer. O prazer de viajar, de conhecer, de descobrir, de usufruir, de aprender.

 

No ano de 2013 registaram-se mais de um bilião de turistas, a nível mundial, prevendo-se que tal cifra chegue aos 1.8 biliões em 2030. Os empregos directos gerados pelo turismo são calculados em 260 milhões que movimentam recursos calculados em quase 10% do PIB mundial.

 

Como nas mais diversas áreas, os seus aspectos positivos não estão, necessariamente, assegurados à partida. Podem não ser atingidos, podem ser, mesmo, distorcidos ou até transformados no seu oposto.

 

De facto, por vezes, os nobres propósitos que alimentam o turismo podem ser descaracterizados, transfigurando-se em atentados à dignidade humana - no caso do turismo sexual, por exemplo, especialmente quando envolve menores - em agressões ambientais ou em factor de exclusão social e de empobrecimento das pessoas.

 

Se essas preocupações são essenciais em qualquer contexto, numa circunstância como a nossa, elas passam a ser determinantes. Pois, se por um lado, o sector turístico pode alcançar em Cabo Verde, em termos directos e indirectos, valores percentuais que ultrapassam os 40% do PIB, ele apresenta, ao mesmo tempo, acentuadas vulnerabilidades, em diversas áreas – institucionais, ambientais e sociais -, que requerem atenção cuidada.

Ilustres convidados,

 

Cabo Verde apostou no Turismo como um dos sectores-chave do desenvolvimento económico e tem, em consequência, investido muito na construção e renovação de infra-estruturas portuárias e aeroportuárias, bem como nas de acolhimento turísticos, criando, ao mesmo tempo, condições que atraem investimentos estrangeiros neste sector.

 

Os efeitos desta opção fizeram-se sentir. Trata-se de um sector que representa hoje, segundo os dados do BCV, relativos ao ano de 2012, 482.000 hóspedes, 3 milhões de dormidas, 34 mil milhões de escudos de receitas, cerca de 24% do PIB e 65% dos serviços totais. 

Minhas Senhoras e meus Senhores,

 

É, efectivamente, o maior sector económico deste arquipélago. Gerador de escala e de oportunidades de desenvolvimento. E como tal deve ser tratado.

 

Antes da actual crise económico-financeira, previa-se criar, num período médio de 40 anos, cerca de 62.000 quartos, sendo 18.000 na Ilha do Maio e 44.000 na Ilha da Boavista. Representariam cerca de 100.000 empregos e um volume de investimentos de cerca de 5 mil milhões de euros, cerca de 130 milhões de euros por ano.

 

De facto, uma oportunidade para o futuro de Cabo Verde e da Boavista.

Creio que as potencialidades existem, mantêm-se, e as expectativas é que devem ser adequadas ao novo contexto.

 

É sabido que a apetência para a procura turística não desaparece com a crise, apesar do poder de compra ser automaticamente afectado, o que implica um ajustamento da oferta e da forma como os produtos são colocados no mercado no sentido de responder a estas circunstâncias. A oferta terá de encontrar formas de adaptação e procurar soluções inovadoras que lhe permitam manter a competitividade.

 

Mas, sobretudo, é fundamental que se esteja atento para que o desejável crescimento do sector não seja indutor de disfunções sociais e ambientais, como por vezes ocorre em outras paragens. Na verdade, o benefício do turismo não está expresso, apenas, na sua contribuição para o PIB, mas na sua participação no processo de desenvolvimento local. Na verdade, por vezes, sem se ter em conta a economia local, o turismo surge como um mundo à parte e não como uma oportunidade de os titulares de pequenas e micro empresas e a população em geral tirarem razoável vantagem.

 

Cabo Verde tem de ambicionar ser e ser percebido como um destino turístico de excelência: sustentável, ecológico, ambiental e de qualidade, indo ao encontro das exigências e produzindo vantagens sociais e económicas, reais, para a sociedade. Nessa linha, o desenvolvimento e aprofundamento do turismo rural e do turismo solidário é de extrema importância, bem como a diversificação da oferta turística em termos geográficos e de produtos.

Como se tem referido, é da maior importância que se explore o potencial indutor que as actividades turísticas têm em relação a outras áreas. 

 

Temos de criar em Cabo Verde um verdadeiro, (usando a palavra na moda) cluster do turismo, envolvendo toda a cadeia de valor, integrando a cultura, o desporto, o entretenimento, a agricultura, o artesanato, a indústria, a restauração, transportes, hospedagem, alimentação, entre outros. Temos de desenvolver um modelo de negócios de produtos estratégicos e medir o seu potencial de desenvolvimento e crescimento cruzado com o território e com a qualidade de vida de todos os cabo-verdianos.

 

Senhor Presidente da Câmara Municipal da Boavista

Senhores Presidentes das Câmaras Municipais da Praia e do Tarrafal

Senhores Deputados

Operadores Turísticos

Minhas Senhoras e meus Senhores,

 

Nessa perspectiva, do desenvolvimento de um turismo ao serviço do bem-estar das pessoas, acredito que necessitamos de uma capacidade institucional que congregue instituições públicas e privadas com capacidade para planificar e criar as condições necessárias para o desenvolvimento do sector.

Temos de querer fazer parte dos melhores entre os melhores do Mundo.

 

Pode ser possível num prazo de 10 anos? Sim, se assim quisermos e para isso trabalharmos com denodo, criatividade e inteligência.

Para tanto, o solo, as infraestruturas, o financiamento, os direitos e deveres dos promotores, dos clientes e do Estado, a gestão de condomínio, a gestão de resorts, os modelos de alavancagem financeira e de parceria público-privado devem ter um enquadramento próprio e estar regulamentados; temos de continuar a reformar a Administração Pública, conseguir reduzir os custos da fiscalidade e melhorar a atitude dos servidores públicos; precisaremos de aumentar a competitividade também ao nível do sector privado através da melhoria de métodos de trabalho, melhor organização e aumento de produtividade e eficiência. O aproveitamento do turismo, em todo o seu potencial, permite, sim, perspectivar o crescimento a dois dígitos e reduzir, efectivamente o desemprego. O turismo é essencial para o desenvolvimento e crescimento de Cabo Verde e pode ser um factor de coesão social e de Corrector de assimetrias regionais.

A questão continua a ser como converter este potencial em oportunidades concretas para o País.

Todos somos interpelados.

 

Temos de assumir que caberá ao sector privado um papel de destaque porque é ele que cria a riqueza e o sector público, nacional e municipal, tem de o suportar, criando as melhores condições para o seu desempenho. Uma das suas preocupações centrais terá de ser, pois, as infraestruturas e as acessibilidades.

Caras Senhoras e ilustres Senhores,

 

O desenvolvimento do turismo de qualidade tem de estar ancorado nas infraestruturas e nas acessibilidades. Cabo Verde mais que triplicou o volume de investimentos públicos nos últimos anos. Contudo, existem ainda problemas com a energia e água, iluminação pública, saneamento, ordenamento urbanístico e acessibilidades nos destinos turísticos mais maduros. Destinos como as ilhas do Sal e da Boavista continuam com problemas infraestruturais importantes.

 

É da maior importância perspectivar o futuro. É fundamental que tenhamos a ambição de construir um futuro à medida dos nossos sonhos, ritmado pelas nossas possibilidades e temperado pelas nossas capacidades.

 

Mas é preciso examinar o horizonte sem ignorar a realidade próxima. O amanhã constrói-se hoje. É por isso que, ao mesmo tempo que projectamos o futuro, devemos olhar à volta e dizer que, logo que possível, é necessário melhorar, nesta ilha, a iluminação pública e a segurança e que a rede viária deve ser rapidamente beneficiada.

 

Há que perspectivar melhores condições de saúde e de educação na Boavista, atentar para a resolução de conflitos entre operadores turísticos e prestadores de serviços e evitar que conflitos laborais latentes sejam exacerbados.

 

Igualmente, a juventude, especialmente a desempregada, deve ser objecto de atenção nos domínios da formação e do emprego.

A melhoria das condições do aeroporto e do transporte marítimo deve, também, ser estudada e analisada.

 

É preciso pensar e promover o turismo numa óptica que tenha em conta o desenvolvimento. Efectivamente, só com uma real integração do turismo na economia local poderá a ilha suportar o elevado fluxo migratório sem que isso venha agravar a situação social dos residentes.

 

Por estas e outras razões, será necessário reponderar opções feitas, reavaliá-las com acrescentado rigor e ver o turismo numa óptica a mais integrada possível. Temos hoje, na ilha da Boa Vista, dois mundos, dois espaços, duas realidades que se cruzam, mas pouco se “conhecem”, pouco se comunicam.

 

Daí o meu apelo a todos os intervenientes para que, doravante com mais vigor, se pense e se promova, o turismo apoiando-se, o mais possível, nos fornecedores locais e usando os recursos endógenos como suporte à estratégia de desenvolvimento do turismo e da ilha, em geral, de forma a permitir às comunidades locais, sobretudo às do Sul da Ilha, participarem, efectivamente e razoavelmente nos ganhos deste sector.

Minhas amigas, meus amigos,

 

Nenhuma crise conjuntural consegue abalar a nossa confiança e desviar-nos do essencial. Temos, sim, de aumentar a competitividade, melhorar as infraestruturas, reduzir os custos de factores, melhorar a prestação de serviços que deve ser eficiente e de qualidade e construir um destino de qualidade, diversificado e com o selo da autenticidade.

 

Diante de desafios tão nobres quanto complexos, não existirá uma outra prescrição aos participantes deste Fórum que não seja uma actuação democrática e construtiva que, em primeiro lugar, exigirá uma acção qualificada, especializada, dos agentes turísticos aqui presentes e, substancialmente, irá requer um forte sentido de Estado dos diferentes agentes da governação – central e local – para o bem maior que é garantir, pela via escolhida, o turismo, as melhores condições de vida das populações.

 

Considero determinante o trabalho conjunto e articulado entre o Governo, as câmaras municipais, os operadores e a sociedade em geral para que Boavista e Cabo Verde, através de turismo de qualidade, sejam, efectivamente, aquele planeta arquipelágico.

 

Na qualidade de Presidente da República continuarei atento às necessidades de todas as ilhas do país e dos que nelas confiam os seus investimentos e estarei sempre disponível para contribuir no exacto cumprimento da missão e das funções para cujo exercício fui escolhido pelo povo de Cabo Verde.

 

Muito grato pelo convite que me foi formulado, Senhor Presidente e pela calorosa recepção e atenção a mim dispensadas, declaro, assim, aberto o Fórum sobre o Turismo na Ilha da Boavista.

Muito obrigado.

 

Veja o vídeo em: http://youtu.be/FkK3Z0slyGU

 

 

 

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publicado às 08:25