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Sr Ministro do Ambiente, Habitação e Ordenamento do Território,

Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Santa Catarina,

Exmo. Sr. Bastonário da Ordem dos Arquitectos de Cabo Verde,

Exmo. Senhor Director do Prémio Nacional da Arquitectura,

Exmos. Senhores arquitectos, representantes dos países africanos visitantes,

Exmos. Senhores Profissionais da Comunicação Social,

Minhas Senhoras e meus Senhores,

 

Quero expressar a minha satisfação ao dirigir-vos estas breves palavras quando se assinala a III Edição do Prémio Nacional de Arquitectura, neste singular e vigoroso espaço que é a cidade da Assomada.

 

Sinto-me profundamente honrado com o convite que a Ordem dos Arquitectos Cabo-verdianos me endereçou para proceder à entrega deste Prémio, numa sessão que nos brindou com as cores vibrantes, a boa música, o artesanato, enfim, com recursos do belo que existe no nosso continente.

 

Permitam-me expressar, igualmente, a minha satisfação com a escolha do tema do Fórum, que decorreu durante dois dias na cidade da Praia, “Arquitectura no desenvolvimento sustentável em África”, com a importante participação das associações de Arquitectura de países amigos, como Guiné Bissau, Gana, Costa do Marfim, Senegal, Mauritânia, Gâmbia, Burkina Faso, Libéria, Mali, Níger, Nigéria, Serra Leoa e Togo. Endereço aos excelentíssimos senhores visitantes, que quiseram prestigiar este evento e brindar os participantes com a sua experiência neste domínio, um cumprimento muito especial.

 

Aproveito, esta oportunidade, ainda, para felicitar a Ordem dos Arquitectos de Cabo Verde pela sua admissão como membro da União Africana dos Arquitectos.

 

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Depois das emoções tão bem medidas que nos foram aqui oferecidas pelos organizadores deste evento, não poderia senão ser abreviado no discurso e tentar não estender-me em palavras que, fortuitamente, pudessem fazer camuflar tais emoções.

 

Por isso, a minha breve mensagem vai no sentido de estimular a OAC a prosseguir na via escolhida, de se posicionar como um parceiro na busca de soluções que tragam melhor qualidade de vida às comunidades e um desenvolvimento arquitectónico harmonioso para o nosso país.

Notamos já alguns progressos nesta matéria em Cabo Verde, e, certamente, terá para isso a OAC contribuído de modo decisivo. Referimo-nos, especialmente, à geração de uma atmosfera de maior cuidado e ponderação relativamente às questões que envolvem a construção e que circundam o ordenamento e a organização do espaço. A OAC, mas, também, as universidades e entidades governativas têm vindo, nos últimos tempos, a instruir algum debate em torno do tema da construção do nosso espaço físico e dos seus efeitos sobre o ambiente e a estrutura social, debate este que julgo dever ser continuado e mesmo alargado.

 

Senhoras e Senhores,

 

Temos inúmeros desafios, alguns muito semelhantes aos dos países amigos aqui representados, que legitimam preocupações e, muito provavelmente, a ruptura com modelos de pensamento e práticas. Talvez, o diagnóstico ainda precise ser aprimorado, mas, certamente, é necessário que se avance em soluções efectivas perante um conjunto de questões. 

O actual desenho urbano de que dispomos, além de inadequado ao nosso clima tropical, representa uma carga excessiva sobre a produção energética baseada em combustíveis fósseis; também se nota, ainda que com tendência para uma melhoria, a quase ausência de espaços verdes e de lazer nas cidades; há um crescimento urbano acelerado, sobretudo na cidade capital do País, mas com predominância de bairros informais/espontâneos e sem as adequadas infra-estruturas e sem os necessários serviços colectivos; verifica-se que as rede viárias, nas cidades e também no meio rural, são muitas vezes inadequadas, ou, por vezes, inexistentes; demasiadas casas mantêm as fachadas inacabadas, o que corrobora num visual algo depreciado das nossas cidades e sítios. Ademais, e este aspecto é da maior importância, existe entre nós um número substancial de pessoas a viver em condições habitacionais precárias ou muito precárias.

 

Minhas Senhoras e meus Senhores,

 

Sabemos que em África persistem grandes constrangimentos. Mas, sabemos, também, que é um Continente feito de inúmeras possibilidades.

Mostra disto é o facto de o prestigiado Prémio Mundial de Arquitectura, Aga Khan, dedicado este ano às obras de excelência com grande impacto directo na vida das pessoas, ter destacado o continente africano. África foi o grande vencedor da gala deste ano, com sete projectos finalistas numa lista de 20.

 

Estou convencido de que, tanto Cabo Verde como outros países africanos, têm as condições - muito em decorrência da excelência profissional dos quadros e técnicos ligados ao sector -, para que se vençam os desafios e para que o país e a região se transformem num exemplo em termos da adopção de modelos positivos de construção, não fosse a arquitectura uma verdadeira arte que permite projectar e edificar o ambiente habitado pelo ser humano.

 

Caros amigos,

 

Sobretudo em contextos em que factores diversos se conjugam para condicionar as condições de vida das pessoas, determinadas profissões, como a Arquitectura, assumem importância particular, em razão das soluções que poderá projectar.

 

Aos profissionais da arquitectura cabem, neste sentido, grandes desafios, que ultrapassam os domínios meramente técnico e estético, assumindo, igualmente, uma clara dimensão ética. 

 

Cabe a busca constante de soluções equilibradas entre as actividades do sector da construção e os meios físicos e culturais envolventes, com claras definições concernentes ao tipo de habitat que pretendemos edificar;

Cabe participar, com os demais profissionais, na conformação de políticas urbanísticas eficientes e que coloquem o interesse colectivo acima dos interesses individuais.

 

Cabe, - e ressaltaria este aspecto dado à sua importância até para a nossa identidade cultural -, zelar por um casamento harmonioso entre modernidade e tradição; entre o novo e a memória. Aos arquitectos, e, sobretudo, ao seu colectivo organizado, cabe colocar o assunto “Património Histórico”, mais fortemente, dentre as preocupações nacionais, intervindo na recuperação de construções históricas, às quais, com ousadia e criatividade, se poderá conferir vida e função.

 

É por isso, aliás, que vejo com bons olhos a cedência, pelo Património do Estado, à Ordem dos Arquitectos de Cabo Verde, do edifício que se constituirá na Casa da Arquitectura, situada na zona histórica da cidade da Praia (Plateau), onde pretende a mesma ordem fazer intervenções que vão no sentido de preservar o nosso património arquitectónico e nossa memória colectiva.

 

Senhor Presidente da OAC,

 

Pensamos que, frente às necessidades diagnosticadas, todo o apoio possível deve ser concedido à OAC e que a contrapartida, sobre a qual devemos insistir, tem de ser a procura constante, pelos seus associados, de soluções equilibradas e da adopção de padrões de construção que expressem a preocupação com sustentabilidade, em termos ambientais, sociais e financeiros.

 

Confrontámo-nos com esse enorme desafio que é o da sensibilização dos diferentes sectores públicos, a nível central e local, e dos profissionais da área no que tange à definição e adopção de um quadro comum de normas aplicáveis, resguardadas as especificidades, em todas as ilhas, municípios e localidades do país.

 

Mas cremos, também, que o colectivo dos arquitectos estará muito bem posicionado para promover tal acção, a “educação para a Arquitectura”, e para a construção de espaços nas nossas ilhas, nas cidades, vilas e aldeias, onde seja possível produzir, reproduzir e conviver em condições dignas.

 

Minhas Senhoras e meus Senhores,

 

Premiar o arquitecto significa distinguir o agente que, num espaço e tempo dados, encarnou aspectos relevantes desse processo, que no exercício da profissão assumiu de forma criativa a multifacetada dimensão da Arquitectura.

 

A distinção tem, igualmente, um pendor colectivo uma vez que, para além da gratificação pessoal inerente a todo o processo criativo, é, também, um incentivo à ousadia, um estímulo a toda a classe no sentido de se procurar ir mais longe, de se superar e de se afirmar enquanto grupo profissional que também sabe valorizar-se.

 

Acreditamos que, ao instituir uma distinção que evidencia os aspectos mais nobres que caracterizam a sua intervenção, a classe homenageia-se de uma forma muito salutar.

 

Com este sentido, caros amigos, apadrinhamos o Prémio Nacional da Arquitectura, já em sua terceira edição. Sinto-me particularmente honrado ao felicitar os Arquitectos Fernando Maurício dos Santos,  Amílcar Melo e Ulisses Cruz pela sua nomeação a este Prémio Nacional da Arquitectura e ao dar os parabéns ao Arquitecto Ricardo Barbosa Vicente, vencedor do mesmo, a quem quero saudar entusiasticamente. Já dizia Goethe que “arquitectura é música petrificada”. É, pois, com esta sensação que acolhemos obras que revelam talento e sensibilidade.

 

Felicito, uma vez mais, os promotores desta Gala, que marca a III Edição do Prémio Nacional da Arquitectura, pela sua excelente organização e reafirmo a minha particular satisfação pelo convite que me foi formulado no sentido de conceder o Alto Patrocínio ao evento e de encerrar esta cerimónia de entrega do III Prémio Nacional de Arquitectura.  

 

Termino dizendo que a pulsão à construção de um espaço à medida dos nossos desejos exige a disponibilização de recursos, é verdade, mas que, também, exige a congregação de vontades e de capacidades. E, é neste sentido que me ofereço para, sempre dentro das minhas possibilidades e no limite das minhas competências, contribuir para a reunião de todas as energias com vista à consolidação deste sector, cada vez mais fundamental na construção do nosso futuro urbano e na qualidade de vida que os nossos filhos e os nossos netos terão nas nossas cidades.

 

Muito obrigado.

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publicado às 12:07