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Senhor Presidente da AIP,
Senhor Presidente do ICEP,
Senhores conferencistas,
Minhas senhoras e meus senhores, 

A coincidência entre a visita de Estado que faço a este país amigo e a organização deste seminário não poderia ser mais auspiciosa. É-me, assim, dada a oportunidade para falar a um grupo distinto de participantes interessados em quanto se faz no meu país, uma pequena economia insular com um grau de integração muito forte na área do euro, em particular com a economia portuguesa.

 
Este seminário, tendo lugar em plena crise económica na área do euro, não poderá, portanto, abstrair-se do contexto em que esta área se encontra e situar-se numa perspectiva de médio/longo prazo.
 

De facto, não podemos desconsiderar um conjunto de novas determinações, próprias do cenário actual, com repercussões inevitáveis nas relações económicas entre os nossos países. 
 

Sabemos que os Programas de ajustamento económico e financeiro, acordados por alguns países, como Portugal, com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional, têm um efeito negativo no curto prazo sobre o crescimento económico e o emprego. De facto, uma forte contracção da actividade económica foi registada neste primeiro trimestre e, prevê-se, para o corrente ano, uma taxa de crescimento do produto interno bruto (PIB) igualmente baixa. O desemprego, neste contexto, situa-se num nível historicamente elevado para a zona euro.
 

Cabo Verde, uma pequena economia insular, com um alto grau de integração na área do euro, como atrás me referi, tem mostrado, no entanto, alguma resiliência aos efeitos negativos muito fortes dessa crise económica e financeira porque passa a economia mundial.
 

Minhas senhoras e meus senhores,
 

Alguns dados podem servir para evidenciar a nossa dependência à área do euro: o comércio externo de Cabo Verde é feito, quase exclusivamente, com a área do euro, como antes dissemos, sendo metade desse comércio feita com Portugal; a taxa de cobertura das nossas importações pelas exportações contínua, pois, muito reduzida, situando-se abaixo dos dez por cento; igualmente, o nosso regime cambial é de taxa de câmbio fixa ao euro e o essencial das remessas dos nossos emigrantes provém da área do euro (mais de dois terços).
 

Neste contexto, e com um défice externo à volta dos 16 por cento do produto interno bruto (PIB) do país, devemos interrogar-nos sobre a pertinência dos canais tradicionais pelos quais a crise na área do euro, nomeadamente em Portugal, se transmite a uma economia com as características da cabo-verdiana, os meios e os objectivos de uma internacionalização da nossa economia.
 

Os factos indicam que, no caso da economia cabo-verdiana, um canal pelo qual a crise económica e financeira na área do euro se transmite é através da quebra no investimento directo estrangeiro. Constatamos uma queda de cerca de 40 por cento nestes dois últimos anos do investimento directo estrangeiro. O financiamento externo da economia teve de se fazer através dos empréstimos que, na maioria dos casos, foram contratados com a taxa de juro bonificada, nomeadamente de Portugal.
 

Assim, do ponto de vista do modelo de desenvolvimento da economia cabo-verdiana, a questão cardinal que se jogará nos próximos anos é a atractividade de investimentos estrangeiros, (e o financiamento do desenvolvimento), através das reformas estruturais nos domínios institucional e das reestruturações das empresas públicas.
 

Para uma pequena economia insular, localizada no interior da elipse que abrange os Arquipélagos vizinhos da Macaronésia e a CEDEAO, a estabilidade, a localização estratégica - a única economia insular na nossa sub-região da CEDEAO, um nível elevado de educação, a aptidão à mudança e a motivação profunda constituem elementos específicos de atractividade de investimentos que formarão as vantagens comparativas do futuro.    
 

Minhas Senhoras e Meus senhores,
 

Na ordem económica mundial cada um se posiciona em função do que pode oferecer com qualidade e sem custos extras. Cabo Verde cedo percebeu qual seria o seu papel em tal contexto.
 

A sua localização no atlântico médio, no cruzamento das rotas que ligam a Europa à América e à África e a escassas milhas da costa ocidental africana; a sua tradicional abertura ao mundo; a interculturalidade do seu povo; a utilização de uma língua com mais de 200 milhões de falantes distribuídos pelos continentes europeu, americano, asiático, africano e mesmo lá nos confins da Oceania; definiam claramente o seu papel. Tinha de ser uma ponte de ligação entre povos, entre mercados produtores e consumidores e um entreposto de prestação de serviços.
 

Cabo Verde cedo percebeu o valor de mercado da paz, da estabilidade política e da tranquilidade social. Investimos seriamente nestes recursos. Interiorizamos a necessidade de respeitar as diferenças e o diferente; apostámos convictamente na via democrática; depositámos todos os nossos recursos na capacitação institucional e na montagem de um estado de direito democrático; assumimos o pragmatismo nos nossos relacionamentos, ainda no tempo da guerra fria; premiamos o mérito e condenamos o laxismo.
 

O papel de ponte pressupõe a existência de dois lados que necessitam de uma ligação inteligente e, sobretudo, confiável. Investimos o que tínhamos e o que não tínhamos em infra-estruturas portuárias, aeroportuárias e rodoviárias; assumimos o controlo efectivo da nossa zona de controlo do tráfego aéreo; mantemos a ordem possível na nossa zona económica exclusiva; estabelecemos parcerias com os países da nossa sub-região africana, com os arquipélagos da Macaronésia, com a União Europeia e com os países que têm o português como língua oficial. Somos membros de pleno direito das Nações Unidas, da União Africana, da cedeao e da cplp. Fazemos parte da OMA (Organização Mundial das Alfândegas) e da OMC (Organização Mundial do Comércio) e contamos com tratamento preferencial por parte dos países industrializados no âmbito do SGP (Sistema Generalizado de Preferências).
 

Soubemos sempre o que seria preciso para nos transformarmos em um entreposto de prestação de serviços e um bom destino para investidores. Abraçámos, por isso, um ambicioso programa de infra-estruturação económica do país; fizemos os investimentos necessários em equipamentos sociais urbanos e em saneamento básico; montámos uma rede de unidades de prestação de cuidados de saúde; pusemos de pé um ousado programa de erradicação do analfabetismo; instituímos o ensino obrigatório e gratuito de 10 anos de escolaridade; apostámos na formação superior dos nossos jovens; informatizámos o país; facilitámos os procedimentos de licenciamento, de registo e das operações de importação e exportação; aprovámos, publicámos e divulgámos um estatuto industrial e um código de investimentos com incentivos convincentes; criámos uma estruturada virada, essencialmente, para a relação com investidores e potenciais investidores.
 

Em Cabo Verde sempre acreditámos que o homem cabo-verdiano era a nossa principal riqueza. No papel que nos está reservado no quadro de distribuição de tarefas neste mundo globalizado, ter infra-estruturas de qualidade e recursos humanos qualificados é condição sine qua non para o sucesso.
 

Minhas senhoras,
Meus senhores,
 

É este país objecto da vossa reflexão e estudo neste seminário, a cuja abertura tenho a honra de presidir. Um país praticamente virgem, com oportunidades por desbravar, que fala a vossa língua, entende a vossa cultura e torce pelos mesmos clubes de futebol. É este país que se abre a investidores sérios e com responsabilidade social e que se esforça por disponibilizar as condições ideais para que os negócios frutifiquem.
 

Creio que a Europa e o euro são mais que nunca necessários. Creio também – e isso não é um paradoxo - que a crise da área do euro é uma oportunidade para Portugal e Cabo Verde reinventarem um modo de relação nos domínios económico, cultural e estratégico. É quando o perigo é maior que as soluções são mais urgentes.
 

Desejo que o seminário atinja plenamente os objectivos definidos. E declaro aberto o Seminário Económico Portugal/Cabo Verde.
 

Muito obrigado.

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publicado às 15:30